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Uma vontade em comum que leva a cumplicidade

Basta abrir a janela do meu quarto numa manhã de quarta-feira que vou notar, em meio as árvores do Largo do Pará – que fica entre as ruas Francisco Glicério e Barão de Jaguará no centro de Campinas –, um grupo de pessoas fazendo alongamento ou algum tipo de ginástica.

Corriqueiramente seria assim, uma observação distante e pouco interessada, típica de quem acha que conhece exatamente o que acontece por ali – e que aquele grupo de pessoas se exercitando não tem nada de interessante para ser descoberto. Um pensamento etnocentrista.

Na última quarta-feira, dia 11 de junho, decidi me atentar um pouco mais àquilo, e dessa vez não como um espectador de janela que fica há 12 andares de altura. Desci e me acomodei em um dos diversos bancos que existem na praça. O grupo de atividades de alongamento e ginástica é promovido pelo centro de saúde da região central de Campinas, e pode ser freqüentado por qualquer pessoa que queira começar o dia com um pouco menos de preguiça.

Minha surpresa ao observar os participantes foi perceber que o grupo parece restringido a pessoas da terceira idade, que se reúnem ali formando um pequeno grupo social. Percebe-se rapidamente que existe uma cumplicidade entre eles, e é bem provável que isso ocorra pela percepção geral de que todos presentes se inserem num mesmo grupo – um grupo além daquele de pessoas que gostam de se exercitar pela manhã.

Depois de observar alguns minutos, a atividade chegou ao fim. Me dirigi a uma senhora, cujo nome confesso que nem cheguei a perguntar, e questionei se ela se sentia melhor praticando as atividades com pessoas que possuíam a mesma faixa de idade que a dela. A resposta foi pontual: “Sim, é bom saber que todos aqui se exercitam por um motivo comum, que o de preservar a saúde e ter um dia-dia melhor.”.

Solta o som DJ! Só que tem que ser no ritmo do bolero…

A nossa história começa com dois personagens.

Ela, Rosária Sanches, 76, viúva á dois anos, olhos castanhos, cabelos loiros, lisos e curtos.

Ele, Raimundo Souza, 75, viúvo á quatro anos, olhos azuis, cabelos brancos na parte inferior da cabeça e careca na parte superior.

E foi aos passos do bolero que esses dois personagens se conheceram. Tudo começou com um trocar de olhares, depois veio uma dança, duas, três, quatro… E com um beijo as duas histórias, viraram uma só.

“Ele não parava de me chamar para dançar, gostou de dançar comigo” – Lembra Rosária. “No começo as pessoas achavam estranho, hoje, depois de conhecerem o Raimundo, eles aceitam melhor”- Conta ela.

O namoro na terceira idade pode parecer estranho para as pessoas que pararam no tempo. Estereótipos como cadeira de balanço, as casas de bingo e o banco da praça podem atrapalhar quem quer ir um pouco além. Essa opção não é fácil de ser escolhida, afinal jovens e adultos, infelizmente, ainda têm muito preconceito quando ficam sabendo que a vovó “ficou” com alguém no baile da terceira idade.

“Foi estranho quando fiquei sabendo que a minha vó tinha “ficado”. Agente sempre acha que não existe isso nessa idade, que eles já pulam direto para o namoro” – Disse Gabriela, 23 anos, neta da Rosária Sanches.

Em entrevista à revista Viva Saúde, a psicóloga Mariuza Pregnolato conta que o namoro na terceira idade faz muito bem.

“Namorar faz bem em todas as idades, mas na terceira idade é melhor ainda, por inúmeros motivos. É tão difundido o tabu de que amor e sexo são para os jovens, que as pessoas, mesmo os casais, acabam se convencendo disso. O resultado é que, à medida que o tempo vai passando, começam a usar sua idade avançada para justificar o tédio, suas doenças e dificuldades nos relacionamentos afetivos e sexuais: A mulher deixa de lubrificar e o ato sexual torna-se desconfortável ou doloroso, enquanto o homem começa a perder ou não conseguir manter a ereção. Vão perdendo o interesse na vida sexual e ambos culpam a idade por isso. No entanto, quando o idoso se apaixona, tudo muda: o corpo responde imediatamente à estimulação da paixão, reagindo naturalmente: a mulher volta a excitar-se, lubrificando abundantemente e o homem depara-se com um desejo constante e o retorno de suas ereções. Em minha prática clínica tenho testemunhado muitas “mágicas” fisiológicas desse tipo e, a que mais gosto, dita recentemente por uma paciente minha: “Se eu tivesse encontrado ele (seu amante) há mais tempo, sei que não teria ficado doente, não teria tido nada daquela seqüência de problemas de saúde, porque era pura falta de paixão, falta de tesão”. Resumindo, namorar na terceira idade, é bom em todos os sentidos: revigora, revitaliza, embeleza, motiva, envaidece, aumenta a auto-estima e o desejo de cuidar-se para o outro; rejuvenesce e deixa a vida cor-de-rosa como na adolescência, só que com licença, autonomia e consciência, livre das preocupações e medos de então.”

Tanto para Rosária, quanto para Raimundo, o namoro hoje é muito melhor que antigamente.

“A liberdade de hoje deixa o namoro mais gostoso. A paixão e o companheirismo têm que ser meio a meio”. Falou Raimundo.

Para os dois o baile teve uma participação muito importante nessa história. Sem essa iniciativa, eles jamais teriam se conhecido. Para Raimundo todos deveriam freqüentar aos bailes.

“Estou vivo, minha filha (risos). Quem fica em casa não sabe o que está perdendo, principalmente de sábado” – Enfatizou Raimundo.

Cada vez mais idosos buscam formas e lugares para se divertir e deixam de lado o preconceito e a impaciência. A moda agora, é viver.

O baile da terceira idade acontece duas vezes na semana de terça das 14h30minh às 20hs e aos sábados das 14 às 18 horas. O ambiente é animado e a pista fica cheia. O objetivo é se dançar, conversar e distrair-se.

“Normalmente somos nós que chamamos as mulheres para dançar, mas às vezes, elas cansam de esperar e tomam a atitude. È bem legal!” – Disse Antonio Luiz, um dos participantes do baile.

Mas não tinha apenas idosos no evento, alguns mais jovens também estavam ali acompanhando todo o movimento e divertindo-se com a alegria dos que estavam ali.

“Não é sempre que venho. Primeiro eu vim para acompanhar o meu avô, mas naquele dia eu me diverti tanto que, quando eu posso, eu venho com ele” – Disse Pietro Santos, 24 anos, neto de Antonio Luiz.

“Acho que faz muito bem para ele, sempre volta animado” – Completou Pietro.

Para Rosária e Raimundo o baile foi muito mais que um dia de diversão, trouxe mais vida para o casal que completou cinco anos de namoro (mas que ambos gostam de falar companheiro). “Ainda bem que eu fui naquele baile, já pensou” – Contou Rosária olhando para Raimundo.

Dançar, sorrir e amar faz bem a qualquer um, principalmente se esta pessoa já viveu bastante e tem muita história para contar… Ai, a festa não tem hora pra acabar!

Mariuza Pregnolato é psicóloga clínica e pesquisadora do comportamento. Possui especialização em Psicologia Analítica pelo Instituto Sedes Sapientiae e em Análise Comportamental pela Universidade de São Paulo.

Quem disse que idosos não comemoram Dia dos Namorados

Quem nunca ouviu que o tempo voa, quando se vê já passou vários anos. Mas essa não é visão do casal Luis Pedro e Josefa, ambos acreditam que o tempo passou no seu devido tempo. Os anos foram virando, mas todos foram aproveitados. Com seus recém completados 52 anos de casamentos, os dois ainda cultivam a data dos namorados.

“Quando é Dia dos Namorados, ou aniversario de casamento, a gente sempre faz alguma coisa especial”, relata Luis. Geralmente Josefa faz um almoço especial. O dia é sempre para os dois. Logo ao amanhecer, é feita a caminhada, que já é rotina para eles. Na volta tomam café-da-manhã, e preparam-se para o dia.

Durante anos Seo Luis trabalhava todo dia. Levantava às 5 horas da manhã. Dona Josefa ficava em casa para preparar tudo, almoço, limpava e roupa limpa. Hoje, aposentado por tempo de serviço e depois de brigar para conseguir, tudo por não ter tido carteira assinada.

Nos dias especiais, o almoço é feito com todo o carinho. No ano anterior, tinha sido carne assada, legumes, arroz, feijão e batata frita. Vale ressaltar a memória de Dona Josefa que sempre lembra de tudo.

Depois do almoço é feito um passeio pelo parque da cidade. Caminham de mãos dadas, sem a preocupação de voltar para casa. E aproveitando o descanso merecido depois de anos de trabalho duro.

Na volta para casa, começa a preparação para o jantar. Segundo Dona Josefa há três anos ela fez a luz de velas, e quer repetir na próxima data. “Eu gosto de coisas românticas. No jantar, a comida tem que ser mais leve. Já não temos a mesma idade para abusar”, diz Josefa.

Nunca deixam nenhum assunto passar em branco. Tudo que ouvem vira conversa, e de vez em quando até discussões. Mas é depois do jantar o melhor momento. Segundo eles, vão dormir de mãos dadas e dormem abraçados. “Agradeço todos os dias à Deus, por ter me dado um marido tão bom”, confessa Josefa.

Na zona rural, idade não chega a interferir na rotina de senhores

Para se tornar um idoso, a pessoa só precisa completar 60 anos. Para uns é a maneira mais fácil de receber seu salário e ter a pausa merecida depois de anos de trabalho. Para outros, é apenas dois algarismos juntos formando um número, para eles a vida continua do mesmo jeito, com os mesmos afazeres e até com o mesmo pique de sempre. Essa segunda opção é mais vista e analisada na zona rural do Brasil. Por serem mais habituadas às coisas simples da vida, esses senhores sentem menos o peso da idade. Essa rotina está comprovada no texto abaixo, produzido por um dos nossos integrantes depois de conversar com um simpático idoso.

O sol ainda não saiu, mas seu Nésio já está de pé. “Levanto antes de o galo cantar pela primeira vez” relata com o sotaque de quem por toda a vida viveu no meio do mato. Sinésio tem 75 anos de idade e é caseiro de um sítio no interior de Minas Gerais. Com a disposição de um jovem e o conhecimento de um senhor que já viveu muito, Nésio, como gosta de ser chamado, conversou comigo há um tempinho atrás, me contou como era a sua vida. “Sabe filho, quando você acorda antes do galo você aproveita mais o dia, fica mais disposto”.

Por volta das 4h30 da manhã seu Nésio levanta, veste a roupa e vai ao encontro das vacas. O dia começa a amanhecer e lá está ele terminando de separá-las. Depois de separadas, com toda a paciência vai ao encontro de cada uma para tirar o leite, que mais tarde irá virar queijo.

De volta a sua simples casinha é hora de fazer o cafézinho e tomar com aquele leite quentinho, que ele mesmo acabou de tirar. Já são sete horas, e está na hora de dar comida para os porcos. Desce o pequeno morro com todo o cuidado para não derrubar o balde com a comida. Depois de uns minutinhos chega ao local, e, acaba tendo uma surpresa.

Durante a noite passada um javali entrou nos cercados onde ficavam os porcos e matou dois recém-nascidos. Momento de tristeza para um senhor que trata os animais como seus filhos e netos, já que os verdadeiros moram longe e com um intervalo de tempo grande é que vem vê-lo.

“Quando eu termino de dar comidas para os porcos é hora de subir para casa e fazer o almoço, por que a fome já tá apertando”. Como a maioria das pessoas que moram em roças o almoço sai bem mais cedo. São 10h30 quando tudo está pronto, e para abrir o apetite “a velha e boa amarelinha”, meio copo de pinga todo dia antes do almoço. “A amarelinha não pode faltar” disse ele sorrindo. Com a barriga cheia e depois de arrumar a cozinha, está na hora de dar uma descansada, durante toda vida essa rotina de dormir depois do almoço é diária.

Nésio levanta e vai para um pequeno barraco que tem ao lado de sua casa. É ali que com o leite que tirou de manhã ele começa a produção artesanal do queijo. Prepara os queijos e deixa descansando em formas feitas por ele mesmo. Com os de hoje em descanso ele começa a embalar os que já estavam no ponto. Já prontos o senhor sobe no cavalo e vai até a venda mais próxima esperar o seu comprador que vem da cidade. Com os queijos vendidos volta para o sítio por que ainda tem que tratar mais uma vez dos porcos.

Mais uma vez no dia seu Nésio desce o morro devagar, “um tombo ali pode machucar”. Animais tratados e o sol indo embora o velho volta para casa para se recolher, dá uma arrumadinha aqui outra ali e é hora do banho. Por muito tempo o banho era gelado, hoje graças a ajuda do dono do sítio a eletricidade chegou e o banho é quente. Até o rádio que era a pilha, hoje é ligado direto na tomada.

De banho tomado, seu Nésio liga o rádio em uma estação onde só se ouvi música sertaneja de raiz. Avesso a televisão, o velho senhor só assiste quando o dono do sítio e seus amigos vêm ver jogo, jogar truco e fazer churrasco. O cigarro de palha acompanha seu Nésio por todo o dia, e antes de dormir fuma para “dar aquela relaxada.”

“Fora esses dias que o pessoal vem aqui, o meu dia acaba lá pelas 20h30, quando eu vou dormir. Mas antes ainda dou uma olhada meio por cima no sítio para ver se não tem nada de errado. Olha, mas é bom ver todo mundo aqui. Gosto disso. A gente bebe, come, ri, joga, o povo é bem animado. Eles fazem me lembrar de quando eu era mais jovem.” Seu Nésio apesar do rosto um pouco fechado, mais castigado pelo tempo do que por ser bravo, se mostra muito atencioso e recebe as visitas muito bem.


Grupo de trabalho

Breno Queiroz
Ewerton Silva
Leandro Filippi
Michelle Occiuzi
Murillo Nascimento
Paulo Passini