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Um nocaute no lugar-comum

Elas têm de 58 a 87 anos de idade, treinam boxe duas vezes por semana e dizem que isso as torna mais jovens



A rotina das senhoras de Rio Grande da Serra, a 40 quilômetros da capital paulista, se assemelha à das pessoas acostumadas a viver em cidades pequenas. A maioria delas se conhece pelo primeiro nome, compra fiado na quitanda e passa o tempo falando sobre novelas, filhos e netos. Tudo isso muda quando as pacatas moradoras da cidade entram no ringue para praticar um esporte que exige força, agilidade e concentração: o boxe. Duas vezes por semana, um grupo de 190 mulheres, com idade entre 58 e 87 anos, veste suas luvas e parte para a troca de socos, em aulas com uma hora de duração. No ginásio, enquanto treinam, parecem esquecer a idade. Dão cruzados e ganchos com vontade. “O pessoal da cidade até passou a me respeitar mais depois que comecei a lutar”, diz Maria Luzia de Jesus Amaro, de 77 anos.

O boxe entrou na vida de Maria Luzia há quatro anos. Mineira, ela se mudou para São Paulo, onde acabaria morando a maior parte da vida, para trabalhar na área administrativa de um colégio tradicional da cidade. Depois de se aposentar, passou a cuidar da mãe, hoje com 95 anos, e de uma irmã, que tem uma deficiência mental. Maria Luzia acredita que os exercícios a ajudam no dia-a-dia. “É bom tanto na parte física quanto no lado emocional.” Ativa, ela não aparenta a idade que tem. Além das aulas de boxe, ela também faz ginástica regularmente. E acredita que o esporte a mantém jovem. “Não me acho velha”, diz.

Benedita Pereira Natale, de 70 anos, é uma senhora miúda, com cabelos completamente brancos e dona de uma energia incrível. Benedita treina há mais de um ano e diz que desde que começou nunca faltou às aulas. O esporte dá ainda mais fôlego para a vovó fazer suas atividades. “Eu nunca paro em casa. Adoro sair, praticar esportes, andar, falar com os vizinhos”, afirma. Benedita mora em Rio Grande da Serra há 36 anos e tem quatro filhos. O caçula, de 46, é quem mais incentiva a mãe a treinar seus jabs.

A entrada dessas mulheres no boxe só aconteceu pela teimosia do lutador e treinador Ailton Pessoa de Lima. Há oito anos, ele teve a iniciativa de ensinar o esporte de graça a mulheres da terceira idade. Não havia nenhum projeto social voltado a esse grupo na cidade. “Eu sentia que as pessoas mais velhas não eram valorizadas e tive vontade de fazer algo por elas”, diz. Nenhuma das alunas de Lima escolheu o boxe pelo histórico na família, como ocorreu com Laila Ali, a mais nova entre os nove filhos de Muhammad Ali e campeã mundial de boxe feminino entre os pesos médios. Na verdade, o professor teve de mostrar gingado para convencer as senhoras de Rio Grande da Serra. “Eu disse a elas que daria aulas de alongamento e de ginástica.” No dia marcado, ele apareceu com luvas de boxe e sacos de pancadas. As 13 alunas que ele havia reunido acharam a idéia divertida. Com o passar do tempo, a classe começou a ficar cheia. As mulheres gostavam tanto do professor que faziam fila para dar um beijinho nele antes da aula. “Algumas chegavam a pegar a fila de novo para ganhar mais um beijo”, diz Lima. “Essas velhinhas têm muito carinho para dar”.

Pouco mais de um ano depois, e encorajado pelo boca a boca que atraía cada vez mais alunas, o treinador convenceu a Prefeitura a investir nas aulas. Conseguiu autorização para usar a quadra municipal de esportes. Hoje, as 190 idosas que treinam são registradas, passam por avaliação médica antes de iniciar o treinamento e têm acompanhamento clínico para evitar problemas de saúde.

No início do treino, as alunas fazem alongamento, seguido de chutes e socos no ar. Depois, elas formam duplas para treinar ganchos e pancadas entre si. No final, quem consegue faz uma sessão de agachamento. No meio da aula, Lima faz uma pausa para que as alunas, de mãos dadas, rezem o pai-nosso. Todas as terças e quintas-feiras, às 8 horas da manhã, elas lotam o ginásio. Estão sempre com uma disposição e alegria invejáveis.

Idosos movimenta corpo em projeto

A disposição é de um atleta de 20 anos. A força de vontade também. E o desejo de manter a saúde em dia e, ao mesmo tempo, fazer amigos e manter uma atividade social é o que leva essas pessoas a praticar esportes como atividade lúdica e divertida. E é isso que buscam os participantes do Projeto Melhor Idade.

Pelo menos duas vezes por semana, homens e mulheres com mais de 50 anos malham, suam a camisa no vôlei adaptado e se divertem nos jogos de dama e de tranca. Elas preferem manter a forma na ginástica. Eles

gostam de competir na bocha ou na malha.

“Os nossos atletas amadores de 3ª Idade buscam melhorar o índice de saúde, melhorar a capacidade física e de interagir com outras pessoas, o que acaba melhorando também até a saúde mental, evitando a solidão e

a depressão”, disse o coordenador do Projeto Melhor Idade do Departamento de Esportes de Campinas, Danilo Ciaco Nunes.

Ali o problema não é a idade, pelo contrario ela só ajuda. No rosto de cada idoso, castigado pelo tempo de trabalho, é fácil de visualizar a alegria, e o grande sorriso. Todos tem disposição de sobra para praticar todas as modalidades e eventos programados. Não reclamam de nada, pelo contrario, querem sempre mais.

“Minha vida melhorou muito depois que comecei a vir no projeto”, diz senhor Jorge, 60 anos. Já dona Maria, acredita não conseguir mais ficar sem praticar exercícios. “Agora tenho que manter meu corpo em movimento”, brinca.


Grupo de trabalho

Breno Queiroz
Ewerton Silva
Leandro Filippi
Michelle Occiuzi
Murillo Nascimento
Paulo Passini