“…Para podermos afirmar que os idosos estão inseridos, de fato, em um grupo social ativo, seja ele caracterizado pela prática de um esporte, por uma atividade cultural que os une, por um classe trabalhadora, ou então por uma atividade de lazer…”
Essa passagem está em nossa primeira postagem realizada nesse blog (Meia Zero). Como se pode notar nas últimas semanas, procuramos idosos pertencentes a um grupo social caracterizado por atividades culturais e comportamentais. Apresentamos visões sobre a religião, esportes, educação, entre outras, sempre com o foco em um grupo da terceira idade inserido nessas atividades. E a tarefa foi cumprida. Conseguimos mostrar as experiências coletadas por nosso grupo em pesquisas e em trabalhos de campo com esses grupos. Conseguimos, até esse momento.
Paradoxalmente, perto de encerrarmos as postagens, surge uma visão conflitante sobre idoso pertencente a um determinado grupo social. Uma visão que não se encaixa nas características de estudo do blog, mas que, antropologicamente, faz-se pertinente como pesquisa de campo e, de forma mais intensa, elimina toda a visão preconceituosa, baseada em chavões e lugar-comum da nossa sociedade quando o assunto são os idosos.
Passei dias procurando reuniões, notícias e todas as informações possíveis sobre grupos de terceira idade em Campinas. Google, jornal impresso, rádio, foram meus companheiros por madrugadas na tentativa de achar um grupo para estudo. Em vão. Os assuntos encontrados já haviam sido abordados por meus colegas de blog. Lar dos Velhinhos, experiência na religião, dia dos namorados, entre outros. Comentei com todos os meus conhecidos – depois de um bom tempo, é verdade -, na esperança de alguém me fornecer uma indicação valiosa. Decisão sábia.
Com essa ação fiquei sabendo sobre um grupo de estudantes do segundo ano de arquitetura da Unicamp, que estava realizando um trabalho sobre revitalização no bairro Vila Nova – o mais antigo de Campinas. O trabalho visava saber o que os moradores achavam do bairro, ou seja, quais eram os pontos positivos e negativos da Vila Nova.
Bem recebido pelo grupo após explicar o meu objetivo, fui até o bairro junto com os alunos – na verdade alunas, na sua maioria -, para saber como era feito esse estudo arquitetônico, já que me pareceu uma boa oportunidade de saber como os idosos viviam no bairro mais velho da cidade.
Inicialmente, encarei como um ledo engano. As perguntas restringiam-se a saneamento básico, condições das casas e do bairro, além de outros questionamentos voltados para um estudo mais arquitetônico. Passei uma manhã inteira ouvindo perguntas e respostas sobre isso.
As horas iam passando e o meu interesse nas entrevistas das alunas da Unicamp ia diminuindo. Isso foi o suficiente para eu desviar a atenção do trabalho realizado por elas. Novamente, uma decisão sábia – dessa vez, pura sorte.
Já à tarde, disperso ao estudo arquitetônico e atento a todo o resto, passei a andar pelo bairro e observar os seus moradores – algo que eu devia ter feito desde o começo. Por eu estar ali no Vila Nova desde o começo dos estudos da Unicamp, as pessoas já estavam familiarizadas comigo e achavam que eu estava fazendo o mesmo trabalho que as meninas da universidade. Brecha suficiente para eu passar despercebido o restante do dia.
Depois de tomar coragem – afinal, eu não passava de um “intruso” naquele momento -, resolvi olhar os moradores mais de perto e a conversar com eles. Um detalhe, todas as pessoas com quem eu falei já tinham sido entrevistadas pelas alunas de arquitetura.
Primeiramente, destaco Sônia. Ela tem 64 anos de idade e mora no bairro Vila Nova há 33 anos. Costureira, teve apenas um filho. Dizia-se feliz com a vida que tinha ali e, apesar de achar o bairro muito sujo e mau cuidado pela prefeitura, por várias vezes afirmou que não sairia de lá por causa do companheirismo dos seus vizinhos. Seu filho, Luciano, de 37 anos, era casado e tinha saído de casa há muitos anos. Ela, viúva, não se sentia sozinha por causa dos seus amigos de décadas. Enquanto falava comigo, Sônia arrancava cascas de uma árvore enquanto contava sobre a sua vida.
Em todos os momentos que falava da ausência do filho e sobre os amigos que tinha na Vila Nova, seus olhos mudavam de direção bruscamente e as cascas da árvore caiam no chão em abundância. Nem sua carreira, nem a sua casa própria e nem mesmo seus pais a faziam mudar o comportamento quanto o filho e a sua história no bairro. Perguntei pra ela se ela fazia parte de algum grupo de dança, lazer, etc, na tentativa de saber o porquê ela se emocionava tanto ao falar dos amigos do bairro. A resposta foi negativa. Disse-me que era amiga de todos, mas que esses grupos não existiam. Continuei, e ela me contou o quanto se importava com os vizinhos, em um ato extremo de sensibilidade. Continuei notando a sua sinceridade e carinho nas palavras desferidas aos amigos de décadas. De acordo com ela, conversas diárias, ajuda em momentos complicados, e compreensão dos problemas, eram os pontos principias da sua convivência na Vila Nova. Para ela, um grupo de dança ou qualquer reunião poderia ser divertido, mas não a fazia se sentir viva quanto uma conversa ou um olhar de uma amiga precisando e requerendo a sua atenção. Nada a fazia se sentir mais um pessoa, um indivíduo, do que saber que suas opiniões e visões do mundo eram necessárias para outras pessoas, honestamente, sem nenhum interesse ou justificativa. Ela não precisava se sentir jovem ou ativa, ela “apenas” precisava se sentir uma pessoa, independente da sua idade.
Tocado pela sua sensibilidade e visão de mundo, não tinha mais perguntas para fazer sobre grupos sociais – afinal, não havia me preparado para essa resposta. Antes de ficar envergonhado pela minha falta de recurso para esse momento, fui “salvo” por David, um dos vizinhos de Sônia. Um senhor calvo, com o rosto repleto de rugas e marcas de expressão, parou no portão, involuntariamente, e começou a ouvir a nossa conversa – nesse momento a falta dela -, e perguntou-me o que eu estava falando com a sua vizinha. Expliquei-lhe o que era e, intrigado com as respostas que tinha obtido, emendei a mesma pergunta sobre a sua participação em algum grupo de lazer, dança ou cultura no bairro. Novamente, a resposta foi negativa.
Enquanto ele respondia, Sônia entrou na sua casa, dizendo que iria buscar uma “pinga” para David. Fiquei surpreso com ato, afinal, ele nem pedira nada a ela. Enquanto tomava a sua bebida, David confirmou que nunca participou de nenhum grupo na Vila Nova. Quis me alongar na conversa, mas logo o senhor calvo nos deixou, falando que tinha que ir embora.
Na sua ausência, perguntei pra Sônia o porquê ela havia buscado um copo de pinga para David, sem ele ter pedido. Ela, sem rodeios me respondeu: “ele adora a pinga”.
Essa frase foi suficiente para eu notar o quanto esse ato era sincero e carinhoso. O motivo deles era a amizade de anos. Mais nada. Não precisava de uma razão específica.
Deixei Sônia e continuei andando no bairro, já no fim da tarde. Passei duas vezes na frente de uma casa pequena e azul. Um velho estava sentado na varanda – algo comum no bairro -, e fumava um cigarro. Na segunda vez que passei ele me chamou e perguntou se eu ia fazer mais perguntas sobre o banheiro da casa dele. Ri, e respondi que não, que tinha vontade de fazer outras perguntas. Desconfiado da minha intromissão, ele concordou, mas pediu para eu ser breve.
Novamente, fui direto ao questionamento de grupos sociais no bairro. E, outra vez, recebi respostas negativas. Mas agora, com um argumento diferente.
Roberto tinha 62 anos e era chaveiro. Enquanto dizia que nunca tinha feito parte de nenhum grupo, reclamava sobre as condições da casa e do bairro, dizendo que tudo é ruim e péssimo. Pergunto quem mora na casa e onde mora o restante da família. Ele mora na casa com a mulher, um filho que é físico com doutorado mora em algum lugar que não lembro mais, e o outro mora no céu. Foi assassinado aos vinte e quatro anos perto do Taquaral.
O que eu faço com isso? Eu, com minhas perguntas sobre grupos sociais. Resolvo que não posso fazer cara da tristeza que estou tendo porque para ele será cara de piedade. Ele é um senhor cético e irritado.
Ele fala do filho. Triste. Pergunto se ele tem religião, ele diz que acredita muito em Deus e me pergunta de volta. Digo que sou ateu – já com um certo pudor da resposta causa algum tipo de influência na nossa breve “convivência. Ele faz um raciocínio para parecer que sou contraditório e superficial, e termina dizendo “Como pode?”.
Não vou ficar pregando a meu favor, eu, que não acredito porque não vivo disso, mas que não posso usar esse argumento com ele. Ele tem uma chatice cativante, mas percebo que ele sabe ouvi-lo e se preocupar só faz diferença para mim nessa conversa.
“Você deve ter percebido que eu sou meio estressado, mas é porque sou muito triste por causa do meu filho.”
Pergunto-lhe se é possível esquecer da tragédia e o que faz para isso. Ele me diz que não, prontamente, mas para por alguns segundos, fala oi para um transeunte e completa: “Eles me ajudam muito, sabia. Não sou muito de conversar, mas, me faz um pouco bem”.
Dessa vez, desisto de perguntar o por que.
Percebi a tristeza contida em todos os idosos que abordei. Muitas vezes me respondiam que estava tudo bem de um jeito, com um olhar urgente, que me parece pouco convincente, ou então, sem muita estruturação do pensamento. Só queriam se livrar dessa pergunta.
Mas, também percebi a felicidade de todos quando o assunto era a vida em grupo – um grupo que não é o mesmo que estudamos nesse blog, ou seja, cultural. Eles se sentiam únicos naquele bairro. Não precisavam de nenhuma ação de lazer ou cultura para se sentirem parte de um grupo. Eles eram um grupo, cada um, individualmente existindo para o outro.
Falhei na procura por um grupo cultural na minha ida à Vila Nova.
Trabalho de campo realizado no dia 10 de junho de 2008.