A nossa história começa com dois personagens.
Ela, Rosária Sanches, 76, viúva á dois anos, olhos castanhos, cabelos loiros, lisos e curtos.
Ele, Raimundo Souza, 75, viúvo á quatro anos, olhos azuis, cabelos brancos na parte inferior da cabeça e careca na parte superior.
E foi aos passos do bolero que esses dois personagens se conheceram. Tudo começou com um trocar de olhares, depois veio uma dança, duas, três, quatro… E com um beijo as duas histórias, viraram uma só.
“Ele não parava de me chamar para dançar, gostou de dançar comigo” – Lembra Rosária. “No começo as pessoas achavam estranho, hoje, depois de conhecerem o Raimundo, eles aceitam melhor”- Conta ela.
O namoro na terceira idade pode parecer estranho para as pessoas que pararam no tempo. Estereótipos como cadeira de balanço, as casas de bingo e o banco da praça podem atrapalhar quem quer ir um pouco além. Essa opção não é fácil de ser escolhida, afinal jovens e adultos, infelizmente, ainda têm muito preconceito quando ficam sabendo que a vovó “ficou” com alguém no baile da terceira idade.
“Foi estranho quando fiquei sabendo que a minha vó tinha “ficado”. Agente sempre acha que não existe isso nessa idade, que eles já pulam direto para o namoro” – Disse Gabriela, 23 anos, neta da Rosária Sanches.
Em entrevista à revista Viva Saúde, a psicóloga Mariuza Pregnolato conta que o namoro na terceira idade faz muito bem.
“Namorar faz bem em todas as idades, mas na terceira idade é melhor ainda, por inúmeros motivos. É tão difundido o tabu de que amor e sexo são para os jovens, que as pessoas, mesmo os casais, acabam se convencendo disso. O resultado é que, à medida que o tempo vai passando, começam a usar sua idade avançada para justificar o tédio, suas doenças e dificuldades nos relacionamentos afetivos e sexuais: A mulher deixa de lubrificar e o ato sexual torna-se desconfortável ou doloroso, enquanto o homem começa a perder ou não conseguir manter a ereção. Vão perdendo o interesse na vida sexual e ambos culpam a idade por isso. No entanto, quando o idoso se apaixona, tudo muda: o corpo responde imediatamente à estimulação da paixão, reagindo naturalmente: a mulher volta a excitar-se, lubrificando abundantemente e o homem depara-se com um desejo constante e o retorno de suas ereções. Em minha prática clínica tenho testemunhado muitas “mágicas” fisiológicas desse tipo e, a que mais gosto, dita recentemente por uma paciente minha: “Se eu tivesse encontrado ele (seu amante) há mais tempo, sei que não teria ficado doente, não teria tido nada daquela seqüência de problemas de saúde, porque era pura falta de paixão, falta de tesão”. Resumindo, namorar na terceira idade, é bom em todos os sentidos: revigora, revitaliza, embeleza, motiva, envaidece, aumenta a auto-estima e o desejo de cuidar-se para o outro; rejuvenesce e deixa a vida cor-de-rosa como na adolescência, só que com licença, autonomia e consciência, livre das preocupações e medos de então.”
Tanto para Rosária, quanto para Raimundo, o namoro hoje é muito melhor que antigamente.
“A liberdade de hoje deixa o namoro mais gostoso. A paixão e o companheirismo têm que ser meio a meio”. Falou Raimundo.
Para os dois o baile teve uma participação muito importante nessa história. Sem essa iniciativa, eles jamais teriam se conhecido. Para Raimundo todos deveriam freqüentar aos bailes.
“Estou vivo, minha filha (risos). Quem fica em casa não sabe o que está perdendo, principalmente de sábado” – Enfatizou Raimundo.
Cada vez mais idosos buscam formas e lugares para se divertir e deixam de lado o preconceito e a impaciência. A moda agora, é viver.
O baile da terceira idade acontece duas vezes na semana de terça das 14h30minh às 20hs e aos sábados das 14 às 18 horas. O ambiente é animado e a pista fica cheia. O objetivo é se dançar, conversar e distrair-se.
“Normalmente somos nós que chamamos as mulheres para dançar, mas às vezes, elas cansam de esperar e tomam a atitude. È bem legal!” – Disse Antonio Luiz, um dos participantes do baile.
Mas não tinha apenas idosos no evento, alguns mais jovens também estavam ali acompanhando todo o movimento e divertindo-se com a alegria dos que estavam ali.
“Não é sempre que venho. Primeiro eu vim para acompanhar o meu avô, mas naquele dia eu me diverti tanto que, quando eu posso, eu venho com ele” – Disse Pietro Santos, 24 anos, neto de Antonio Luiz.
“Acho que faz muito bem para ele, sempre volta animado” – Completou Pietro.
Para Rosária e Raimundo o baile foi muito mais que um dia de diversão, trouxe mais vida para o casal que completou cinco anos de namoro (mas que ambos gostam de falar companheiro). “Ainda bem que eu fui naquele baile, já pensou” – Contou Rosária olhando para Raimundo.
Dançar, sorrir e amar faz bem a qualquer um, principalmente se esta pessoa já viveu bastante e tem muita história para contar… Ai, a festa não tem hora pra acabar!
Mariuza Pregnolato é psicóloga clínica e pesquisadora do comportamento. Possui especialização em Psicologia Analítica pelo Instituto Sedes Sapientiae e em Análise Comportamental pela Universidade de São Paulo.
0 Respostas to “Solta o som DJ! Só que tem que ser no ritmo do bolero…”