A antítese do trabalho feito no blog

“…Para podermos afirmar que os idosos estão inseridos, de fato, em um grupo social ativo, seja ele caracterizado pela prática de um esporte, por uma atividade cultural que os une, por um classe trabalhadora, ou então por uma atividade de lazer…”

Essa passagem está em nossa primeira postagem realizada nesse blog (Meia Zero). Como se pode notar nas últimas semanas, procuramos idosos pertencentes a um grupo social caracterizado por atividades culturais e comportamentais. Apresentamos visões sobre a religião, esportes, educação, entre outras, sempre com o foco em um grupo da terceira idade inserido nessas atividades. E a tarefa foi cumprida. Conseguimos mostrar as experiências coletadas por nosso grupo em pesquisas e em trabalhos de campo com esses grupos. Conseguimos, até esse momento.

Paradoxalmente, perto de encerrarmos as postagens, surge uma visão conflitante sobre idoso pertencente a um determinado grupo social. Uma visão que não se encaixa nas características de estudo do blog, mas que, antropologicamente, faz-se pertinente como pesquisa de campo e, de forma mais intensa, elimina toda a visão preconceituosa, baseada em chavões e lugar-comum da nossa sociedade quando o assunto são os idosos.

Passei dias procurando reuniões, notícias e todas as informações possíveis sobre grupos de terceira idade em Campinas. Google, jornal impresso, rádio, foram meus companheiros por madrugadas na tentativa de achar um grupo para estudo. Em vão. Os assuntos encontrados já haviam sido abordados por meus colegas de blog. Lar dos Velhinhos, experiência na religião, dia dos namorados, entre outros. Comentei com todos os meus conhecidos – depois de um bom tempo, é verdade -, na esperança de alguém me fornecer uma indicação valiosa. Decisão sábia.

Com essa ação fiquei sabendo sobre um grupo de estudantes do segundo ano de arquitetura da Unicamp, que estava realizando um trabalho sobre revitalização no bairro Vila Nova – o mais antigo de Campinas. O trabalho visava saber o que os moradores achavam do bairro, ou seja, quais eram os pontos positivos e negativos da Vila Nova.

Bem recebido pelo grupo após explicar o meu objetivo, fui até o bairro junto com os alunos – na verdade alunas, na sua maioria -, para saber como era feito esse estudo arquitetônico, já que me pareceu uma boa oportunidade de saber como os idosos viviam no bairro mais velho da cidade.

Inicialmente, encarei como um ledo engano. As perguntas restringiam-se a saneamento básico, condições das casas e do bairro, além de outros questionamentos voltados para um estudo mais arquitetônico. Passei uma manhã inteira ouvindo perguntas e respostas sobre isso.

As horas iam passando e o meu interesse nas entrevistas das alunas da Unicamp ia diminuindo. Isso foi o suficiente para eu desviar a atenção do trabalho realizado por elas. Novamente, uma decisão sábia – dessa vez, pura sorte.

Já à tarde, disperso ao estudo arquitetônico e atento a todo o resto, passei a andar pelo bairro e observar os seus moradores – algo que eu devia ter feito desde o começo. Por eu estar ali no Vila Nova desde o começo dos estudos da Unicamp, as pessoas já estavam familiarizadas comigo e achavam que eu estava fazendo o mesmo trabalho que as meninas da universidade. Brecha suficiente para eu passar despercebido o restante do dia.

Depois de tomar coragem – afinal, eu não passava de um “intruso” naquele momento -, resolvi olhar os moradores mais de perto e a conversar com eles. Um detalhe, todas as pessoas com quem eu falei já tinham sido entrevistadas pelas alunas de arquitetura.

Primeiramente, destaco Sônia. Ela tem 64 anos de idade e mora no bairro Vila Nova há 33 anos. Costureira, teve apenas um filho. Dizia-se feliz com a vida que tinha ali e, apesar de achar o bairro muito sujo e mau cuidado pela prefeitura, por várias vezes afirmou que não sairia de lá por causa do companheirismo dos seus vizinhos. Seu filho, Luciano, de 37 anos, era casado e tinha saído de casa há muitos anos. Ela, viúva, não se sentia sozinha por causa dos seus amigos de décadas. Enquanto falava comigo, Sônia arrancava cascas de uma árvore enquanto contava sobre a sua vida.

Em todos os momentos que falava da ausência do filho e sobre os amigos que tinha na Vila Nova, seus olhos mudavam de direção bruscamente e as cascas da árvore caiam no chão em abundância. Nem sua carreira, nem a sua casa própria e nem mesmo seus pais a faziam mudar o comportamento quanto o filho e a sua história no bairro. Perguntei pra ela se ela fazia parte de algum grupo de dança, lazer, etc, na tentativa de saber o porquê ela se emocionava tanto ao falar dos amigos do bairro. A resposta foi negativa. Disse-me que era amiga de todos, mas que esses grupos não existiam. Continuei, e ela me contou o quanto se importava com os vizinhos, em um ato extremo de sensibilidade. Continuei notando a sua sinceridade e carinho nas palavras desferidas aos amigos de décadas. De acordo com ela, conversas diárias, ajuda em momentos complicados, e compreensão dos problemas, eram os pontos principias da sua convivência na Vila Nova. Para ela, um grupo de dança ou qualquer reunião poderia ser divertido, mas não a fazia se sentir viva quanto uma conversa ou um olhar de uma amiga precisando e requerendo a sua atenção. Nada a fazia se sentir mais um pessoa, um indivíduo, do que saber que suas opiniões e visões do mundo eram necessárias para outras pessoas, honestamente, sem nenhum interesse ou justificativa. Ela não precisava se sentir jovem ou ativa, ela “apenas” precisava se sentir uma pessoa, independente da sua idade.

Tocado pela sua sensibilidade e visão de mundo, não tinha mais perguntas para fazer sobre grupos sociais – afinal, não havia me preparado para essa resposta. Antes de ficar envergonhado pela minha falta de recurso para esse momento, fui “salvo” por David, um dos vizinhos de Sônia. Um senhor calvo, com o rosto repleto de rugas e marcas de expressão, parou no portão, involuntariamente, e começou a ouvir a nossa conversa – nesse momento a falta dela -, e perguntou-me o que eu estava falando com a sua vizinha. Expliquei-lhe o que era e, intrigado com as respostas que tinha obtido, emendei a mesma pergunta sobre a sua participação em algum grupo de lazer, dança ou cultura no bairro. Novamente, a resposta foi negativa.

Enquanto ele respondia, Sônia entrou na sua casa, dizendo que iria buscar uma “pinga” para David. Fiquei surpreso com ato, afinal, ele nem pedira nada a ela. Enquanto tomava a sua bebida, David confirmou que nunca participou de nenhum grupo na Vila Nova. Quis me alongar na conversa, mas logo o senhor calvo nos deixou, falando que tinha que ir embora.

Na sua ausência, perguntei pra Sônia o porquê ela havia buscado um copo de pinga para David, sem ele ter pedido. Ela, sem rodeios me respondeu: “ele adora a pinga”.

Essa frase foi suficiente para eu notar o quanto esse ato era sincero e carinhoso. O motivo deles era a amizade de anos. Mais nada. Não precisava de uma razão específica.

Deixei Sônia e continuei andando no bairro, já no fim da tarde. Passei duas vezes na frente de uma casa pequena e azul. Um velho estava sentado na varanda – algo comum no bairro -, e fumava um cigarro. Na segunda vez que passei ele me chamou e perguntou se eu ia fazer mais perguntas sobre o banheiro da casa dele. Ri, e respondi que não, que tinha vontade de fazer outras perguntas. Desconfiado da minha intromissão, ele concordou, mas pediu para eu ser breve.

Novamente, fui direto ao questionamento de grupos sociais no bairro. E, outra vez, recebi respostas negativas. Mas agora, com um argumento diferente.

Roberto tinha 62 anos e era chaveiro. Enquanto dizia que nunca tinha feito parte de nenhum grupo, reclamava sobre as condições da casa e do bairro, dizendo que tudo é ruim e péssimo. Pergunto quem mora na casa e onde mora o restante da família. Ele mora na casa com a mulher, um filho que é físico com doutorado mora em algum lugar que não lembro mais, e o outro mora no céu. Foi assassinado aos vinte e quatro anos perto do Taquaral.

O que eu faço com isso? Eu, com minhas perguntas sobre grupos sociais. Resolvo que não posso fazer cara da tristeza que estou tendo porque para ele será cara de piedade. Ele é um senhor cético e irritado.

Ele fala do filho. Triste. Pergunto se ele tem religião, ele diz que acredita muito em Deus e me pergunta de volta. Digo que sou ateu – já com um certo pudor da resposta causa algum tipo de influência na nossa breve “convivência. Ele faz um raciocínio para parecer que sou contraditório e superficial, e termina dizendo “Como pode?”.

Não vou ficar pregando a meu favor, eu, que não acredito porque não vivo disso, mas que não posso usar esse argumento com ele. Ele tem uma chatice cativante, mas percebo que ele sabe ouvi-lo e se preocupar só faz diferença para mim nessa conversa.

“Você deve ter percebido que eu sou meio estressado, mas é porque sou muito triste por causa do meu filho.”

Pergunto-lhe se é possível esquecer da tragédia e o que faz para isso. Ele me diz que não, prontamente, mas para por alguns segundos, fala oi para um transeunte e completa: “Eles me ajudam muito, sabia. Não sou muito de conversar, mas, me faz um pouco bem”.

Dessa vez, desisto de perguntar o por que.

Percebi a tristeza contida em todos os idosos que abordei. Muitas vezes me respondiam que estava tudo bem de um jeito, com um olhar urgente, que me parece pouco convincente, ou então, sem muita estruturação do pensamento. Só queriam se livrar dessa pergunta.

Mas, também percebi a felicidade de todos quando o assunto era a vida em grupo – um grupo que não é o mesmo que estudamos nesse blog, ou seja, cultural. Eles se sentiam únicos naquele bairro. Não precisavam de nenhuma ação de lazer ou cultura para se sentirem parte de um grupo. Eles eram um grupo, cada um, individualmente existindo para o outro.

Falhei na procura por um grupo cultural na minha ida à Vila Nova.

Trabalho de campo realizado no dia 10 de junho de 2008.

Constituição familiar…

Ta ai a maior alegria dessas pessoas quais tivemos esse tempo de estudo. A 3ª idade ama olhar para traz e ver os “frutos” por eles gerado. Ao conversar com algum deles sobre suas respectivas famílias, é lindo ver as lágrimas começando a percorrer por seus rostos. A emoção chega ao extremo… As palavras “tropeçam” para sair… Um tremor toma conta dos lábios…

Atitudes essas que falam por si. Mas a realização de ver os filhos, netos e até bisnetos, não contem os lindos testemunhos de amor.

As histórias, preocupações e realizações são muito parecidas. Começam a falar, “Na minha época era muito diferente, a violência não era tanta, não existia esse vício exagerado de drogas químicas, sabia-se aproveitar. Nos dias de hoje é muito difícil viver uma vida sadia.”.

Claro que os momentos da vida não são os mesmos. Tem se as mudanças naturais de uma geração para a outra. Porém, isso muitas vezes, é uma situação difícil de ser aceita. Temos a mania de querer que todos vivam as mesmas coisas que vivemos. E com os anos que separam um nascimento do outro, fica-se difícil a mesma vivencia.

Transcendência… Creio que seja a palavra que traduza o desejo dos mais velhos para com seus descendentes. Essa palavra que significa a capacidade de superar os limites normais, com certeza é a vontade da vó e do vô, que julgam os tempos atuais como violento e perigoso! Necessária coragem, garra e determinação para superar os limites que se tornam normais com o passar dos anos.

Queria mergulhar um pouco na área financeira da constituição familiar. E acabei percebendo que mesmo quando uma família passa por diversas dificuldades por falta de dinheiro, o que realmente tem valor, acima das brigas que podem ocorrer, é a felicidade de ver os netos correndo para lá e para cá, o brilho nos olhos ao ouvir vovó / vovô, bença e com carinho respondem Deus abençoe!

“Minha vida tem sentido, quando olho para trás e vejo lindos anjinhos”, é uma frase muito comovente que me foi direcionada quando a Vó Ana olhou para seu netinho.

Concluo dizendo que se compreendêssemos tal amor a “nós” direcionado, aproveitaríamos melhor os poucos momentos que ainda nos restam com nossos coroas (palavra que se usa para chamar as pessoas mais velhas).

Uma vontade em comum que leva a cumplicidade

Basta abrir a janela do meu quarto numa manhã de quarta-feira que vou notar, em meio as árvores do Largo do Pará – que fica entre as ruas Francisco Glicério e Barão de Jaguará no centro de Campinas –, um grupo de pessoas fazendo alongamento ou algum tipo de ginástica.

Corriqueiramente seria assim, uma observação distante e pouco interessada, típica de quem acha que conhece exatamente o que acontece por ali – e que aquele grupo de pessoas se exercitando não tem nada de interessante para ser descoberto. Um pensamento etnocentrista.

Na última quarta-feira, dia 11 de junho, decidi me atentar um pouco mais àquilo, e dessa vez não como um espectador de janela que fica há 12 andares de altura. Desci e me acomodei em um dos diversos bancos que existem na praça. O grupo de atividades de alongamento e ginástica é promovido pelo centro de saúde da região central de Campinas, e pode ser freqüentado por qualquer pessoa que queira começar o dia com um pouco menos de preguiça.

Minha surpresa ao observar os participantes foi perceber que o grupo parece restringido a pessoas da terceira idade, que se reúnem ali formando um pequeno grupo social. Percebe-se rapidamente que existe uma cumplicidade entre eles, e é bem provável que isso ocorra pela percepção geral de que todos presentes se inserem num mesmo grupo – um grupo além daquele de pessoas que gostam de se exercitar pela manhã.

Depois de observar alguns minutos, a atividade chegou ao fim. Me dirigi a uma senhora, cujo nome confesso que nem cheguei a perguntar, e questionei se ela se sentia melhor praticando as atividades com pessoas que possuíam a mesma faixa de idade que a dela. A resposta foi pontual: “Sim, é bom saber que todos aqui se exercitam por um motivo comum, que o de preservar a saúde e ter um dia-dia melhor.”.

Faculdade na Terceira Idade

Corpos e mentes em plena atividade não são mais privilégios dos jovens. A procura por conhecimento e atividade por parte de pessoas com mais de 60 anos aumentou na mesma proporção que as faculdades especializadas nesse público, várias instituições oferecem cursos para esse público, que abordam temas como

Psicologia, saúde e Filosofia, centrados na qualidade de vida dos idosos.

Depois de certa idade, a pessoa fica com a vida vazia, porque os filhos se casam e saem de casa ou porque o marido ou a mulher falecem. Isso, às vezes, leva à depressão. As faculdades reintegram os idosos a sociedade através da convivência com outras pessoas. Onde os idosos melhoram a auto-estima, na relação interpessoal, com a família e amigos, diminuindo a depressão e a ansiedade.

Existem muitas instituições em que o ensino não está voltado para a graduação. Os alunos também não são obrigados a cursar todos os módulos. Não oferecem diplomas, nem exigem provas ou exames de avaliação. Por meio da neurolingüística, fazem com que o indivíduo trabalhe com o seu próprio emocional. Muitos chegam com baixa auto-estima. E o objetivo é fazer com que ainda se sintam capazes de realizarem algo produtivo para a sociedade. A duração média dos cursos é de até dois anos. Já na USP os projetos já são diferentes, como é o caso da Universidade Aberta à Terceira Idade, que existe há dez anos sob a coordenação da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária, que tem como objetivo integrar o idoso à comunidade acadêmica, conscientizando-o da importância do seu papel na sociedade. Desde sua implantação, o programa já envolveu 12 mil pessoas e mais uma vez oferece várias disciplinas de graduação, além de atividades didático-culturais e físico-esportivas, nos campi da USP em São Paulo, São Carlos, Bauru, Piracicaba, Pirassununga e Ribeirão Preto.

Um nocaute no lugar-comum

Elas têm de 58 a 87 anos de idade, treinam boxe duas vezes por semana e dizem que isso as torna mais jovens



A rotina das senhoras de Rio Grande da Serra, a 40 quilômetros da capital paulista, se assemelha à das pessoas acostumadas a viver em cidades pequenas. A maioria delas se conhece pelo primeiro nome, compra fiado na quitanda e passa o tempo falando sobre novelas, filhos e netos. Tudo isso muda quando as pacatas moradoras da cidade entram no ringue para praticar um esporte que exige força, agilidade e concentração: o boxe. Duas vezes por semana, um grupo de 190 mulheres, com idade entre 58 e 87 anos, veste suas luvas e parte para a troca de socos, em aulas com uma hora de duração. No ginásio, enquanto treinam, parecem esquecer a idade. Dão cruzados e ganchos com vontade. “O pessoal da cidade até passou a me respeitar mais depois que comecei a lutar”, diz Maria Luzia de Jesus Amaro, de 77 anos.

O boxe entrou na vida de Maria Luzia há quatro anos. Mineira, ela se mudou para São Paulo, onde acabaria morando a maior parte da vida, para trabalhar na área administrativa de um colégio tradicional da cidade. Depois de se aposentar, passou a cuidar da mãe, hoje com 95 anos, e de uma irmã, que tem uma deficiência mental. Maria Luzia acredita que os exercícios a ajudam no dia-a-dia. “É bom tanto na parte física quanto no lado emocional.” Ativa, ela não aparenta a idade que tem. Além das aulas de boxe, ela também faz ginástica regularmente. E acredita que o esporte a mantém jovem. “Não me acho velha”, diz.

Benedita Pereira Natale, de 70 anos, é uma senhora miúda, com cabelos completamente brancos e dona de uma energia incrível. Benedita treina há mais de um ano e diz que desde que começou nunca faltou às aulas. O esporte dá ainda mais fôlego para a vovó fazer suas atividades. “Eu nunca paro em casa. Adoro sair, praticar esportes, andar, falar com os vizinhos”, afirma. Benedita mora em Rio Grande da Serra há 36 anos e tem quatro filhos. O caçula, de 46, é quem mais incentiva a mãe a treinar seus jabs.

A entrada dessas mulheres no boxe só aconteceu pela teimosia do lutador e treinador Ailton Pessoa de Lima. Há oito anos, ele teve a iniciativa de ensinar o esporte de graça a mulheres da terceira idade. Não havia nenhum projeto social voltado a esse grupo na cidade. “Eu sentia que as pessoas mais velhas não eram valorizadas e tive vontade de fazer algo por elas”, diz. Nenhuma das alunas de Lima escolheu o boxe pelo histórico na família, como ocorreu com Laila Ali, a mais nova entre os nove filhos de Muhammad Ali e campeã mundial de boxe feminino entre os pesos médios. Na verdade, o professor teve de mostrar gingado para convencer as senhoras de Rio Grande da Serra. “Eu disse a elas que daria aulas de alongamento e de ginástica.” No dia marcado, ele apareceu com luvas de boxe e sacos de pancadas. As 13 alunas que ele havia reunido acharam a idéia divertida. Com o passar do tempo, a classe começou a ficar cheia. As mulheres gostavam tanto do professor que faziam fila para dar um beijinho nele antes da aula. “Algumas chegavam a pegar a fila de novo para ganhar mais um beijo”, diz Lima. “Essas velhinhas têm muito carinho para dar”.

Pouco mais de um ano depois, e encorajado pelo boca a boca que atraía cada vez mais alunas, o treinador convenceu a Prefeitura a investir nas aulas. Conseguiu autorização para usar a quadra municipal de esportes. Hoje, as 190 idosas que treinam são registradas, passam por avaliação médica antes de iniciar o treinamento e têm acompanhamento clínico para evitar problemas de saúde.

No início do treino, as alunas fazem alongamento, seguido de chutes e socos no ar. Depois, elas formam duplas para treinar ganchos e pancadas entre si. No final, quem consegue faz uma sessão de agachamento. No meio da aula, Lima faz uma pausa para que as alunas, de mãos dadas, rezem o pai-nosso. Todas as terças e quintas-feiras, às 8 horas da manhã, elas lotam o ginásio. Estão sempre com uma disposição e alegria invejáveis.

Solta o som DJ! Só que tem que ser no ritmo do bolero…

A nossa história começa com dois personagens.

Ela, Rosária Sanches, 76, viúva á dois anos, olhos castanhos, cabelos loiros, lisos e curtos.

Ele, Raimundo Souza, 75, viúvo á quatro anos, olhos azuis, cabelos brancos na parte inferior da cabeça e careca na parte superior.

E foi aos passos do bolero que esses dois personagens se conheceram. Tudo começou com um trocar de olhares, depois veio uma dança, duas, três, quatro… E com um beijo as duas histórias, viraram uma só.

“Ele não parava de me chamar para dançar, gostou de dançar comigo” – Lembra Rosária. “No começo as pessoas achavam estranho, hoje, depois de conhecerem o Raimundo, eles aceitam melhor”- Conta ela.

O namoro na terceira idade pode parecer estranho para as pessoas que pararam no tempo. Estereótipos como cadeira de balanço, as casas de bingo e o banco da praça podem atrapalhar quem quer ir um pouco além. Essa opção não é fácil de ser escolhida, afinal jovens e adultos, infelizmente, ainda têm muito preconceito quando ficam sabendo que a vovó “ficou” com alguém no baile da terceira idade.

“Foi estranho quando fiquei sabendo que a minha vó tinha “ficado”. Agente sempre acha que não existe isso nessa idade, que eles já pulam direto para o namoro” – Disse Gabriela, 23 anos, neta da Rosária Sanches.

Em entrevista à revista Viva Saúde, a psicóloga Mariuza Pregnolato conta que o namoro na terceira idade faz muito bem.

“Namorar faz bem em todas as idades, mas na terceira idade é melhor ainda, por inúmeros motivos. É tão difundido o tabu de que amor e sexo são para os jovens, que as pessoas, mesmo os casais, acabam se convencendo disso. O resultado é que, à medida que o tempo vai passando, começam a usar sua idade avançada para justificar o tédio, suas doenças e dificuldades nos relacionamentos afetivos e sexuais: A mulher deixa de lubrificar e o ato sexual torna-se desconfortável ou doloroso, enquanto o homem começa a perder ou não conseguir manter a ereção. Vão perdendo o interesse na vida sexual e ambos culpam a idade por isso. No entanto, quando o idoso se apaixona, tudo muda: o corpo responde imediatamente à estimulação da paixão, reagindo naturalmente: a mulher volta a excitar-se, lubrificando abundantemente e o homem depara-se com um desejo constante e o retorno de suas ereções. Em minha prática clínica tenho testemunhado muitas “mágicas” fisiológicas desse tipo e, a que mais gosto, dita recentemente por uma paciente minha: “Se eu tivesse encontrado ele (seu amante) há mais tempo, sei que não teria ficado doente, não teria tido nada daquela seqüência de problemas de saúde, porque era pura falta de paixão, falta de tesão”. Resumindo, namorar na terceira idade, é bom em todos os sentidos: revigora, revitaliza, embeleza, motiva, envaidece, aumenta a auto-estima e o desejo de cuidar-se para o outro; rejuvenesce e deixa a vida cor-de-rosa como na adolescência, só que com licença, autonomia e consciência, livre das preocupações e medos de então.”

Tanto para Rosária, quanto para Raimundo, o namoro hoje é muito melhor que antigamente.

“A liberdade de hoje deixa o namoro mais gostoso. A paixão e o companheirismo têm que ser meio a meio”. Falou Raimundo.

Para os dois o baile teve uma participação muito importante nessa história. Sem essa iniciativa, eles jamais teriam se conhecido. Para Raimundo todos deveriam freqüentar aos bailes.

“Estou vivo, minha filha (risos). Quem fica em casa não sabe o que está perdendo, principalmente de sábado” – Enfatizou Raimundo.

Cada vez mais idosos buscam formas e lugares para se divertir e deixam de lado o preconceito e a impaciência. A moda agora, é viver.

O baile da terceira idade acontece duas vezes na semana de terça das 14h30minh às 20hs e aos sábados das 14 às 18 horas. O ambiente é animado e a pista fica cheia. O objetivo é se dançar, conversar e distrair-se.

“Normalmente somos nós que chamamos as mulheres para dançar, mas às vezes, elas cansam de esperar e tomam a atitude. È bem legal!” – Disse Antonio Luiz, um dos participantes do baile.

Mas não tinha apenas idosos no evento, alguns mais jovens também estavam ali acompanhando todo o movimento e divertindo-se com a alegria dos que estavam ali.

“Não é sempre que venho. Primeiro eu vim para acompanhar o meu avô, mas naquele dia eu me diverti tanto que, quando eu posso, eu venho com ele” – Disse Pietro Santos, 24 anos, neto de Antonio Luiz.

“Acho que faz muito bem para ele, sempre volta animado” – Completou Pietro.

Para Rosária e Raimundo o baile foi muito mais que um dia de diversão, trouxe mais vida para o casal que completou cinco anos de namoro (mas que ambos gostam de falar companheiro). “Ainda bem que eu fui naquele baile, já pensou” – Contou Rosária olhando para Raimundo.

Dançar, sorrir e amar faz bem a qualquer um, principalmente se esta pessoa já viveu bastante e tem muita história para contar… Ai, a festa não tem hora pra acabar!

Mariuza Pregnolato é psicóloga clínica e pesquisadora do comportamento. Possui especialização em Psicologia Analítica pelo Instituto Sedes Sapientiae e em Análise Comportamental pela Universidade de São Paulo.

Vovôs e vovós tocando o barco na igreja

Desde que minha mãe me gerava em seu ventre participo dos eventos católicos, na paróquia Santa Edwiges, no jardim Aurélia. Sozinho, comecei a participar da catequese, que foram três anos. Após esse período, fui para a infância missionária que depois passou a ser juventude missionária. Com meus 16 anos, fui para o grupo de jovens da paróquia. E uma coisa que percebi, foi que sempre tivemos se não coordenadores, assessores adultos e na maioria das vezes idosos. Por tanto, resolvi saber por que isso é um elemento, percentualmente, alto.

Comecei a conversar com os praticantes acima de 60 anos e os com idade inferior a isso. Percebi que estes da 3ª idade, são realmente praticantes. Que não assumem somente um trabalho e sim vários. Vou dividir por faixa etária para ficar mais compreensível. Conversando com os jovens, que classifiquei de 18 a 30 anos, que é a idade onde começam a assumir os trabalhos. Estes assumem um compromisso e dão duro para dar conta, pois é uma fase onde estão preocupados com a vida acadêmica, ou em entrar em uma boa universidade ou em começar a constituir uma família, com isto é difícil ter muitos trabalhos na igreja. Em alguns casos, costumam até dar uma afastada da religião, com o motivo de que não terem tempo.

Já com os adultos de 30 a 60 anos, que é a idade onde voltam a participar ativamente e continuam com um compromisso “leve”, alguns assumem mais responsabilidade, mas são poucos. Depois dos 50, aí sim a tendência é de aumentar o a vida comunitária na igreja.

Quando alcançam seu “sessentão”, os que continuam na paróquia, que são muitos, assumem com força duas ou mais pastorais. E pode se dizer que, com o apoio do sacerdote, levam a frente os bons trabalhos das pastorais. Com certeza concluo que isto se dá pelo tempo que os mesmos possuem, por que a maior parte deles, já está aposentado e não gostam de ficar em casa com tempo ócio, e aproveitam est tempo para ir ajudar na paróquia, acreditando na melhor vida social que pode se ter e proporcionar a seus filhos e netos.

Claro que os “avôs” (palavra que com carinhos os mais novos costumam chamá-los) contam com a ajuda dos mais novos nos finais de semana, ou no meio de semana, quando podem. Mas a presença dos vovôs e vovós já é certa para “tocar o barco”.

Análise realizada na paróquia Santa Edwiges

Visita ao Lar dos Velhinhos

O Lar dos Velhinhos de Campinas é uma entidade denominada como uma associação civil, assistencial, beneficente e filantrópica, sem fins lucrativos, destinada a prestar assistência às pessoas idosas carentes, na cidade de Campinas, com profissionais especializados nas áreas de Gerontologia Social e Geriatria.

A visita que fizemos a essa associação foi uma experiência estranha, pois mexeu muito com os nossos sentimentos, a começar pela recepção pelos próprios funcionários da entidade, que nos atenderam com desconfiança e não aprofundaram nas informações, o que nos percebemos naquele dia é que existe duas alas na instituição, uma para idosos carentes e outra para idosos que pagam mensalidades, pelo que percebi ficamos na ala particular, onde esperávamos encontrar um espaço cheio de velhinhos amigos jogando xadrez, lendo livros e tricotando…Mas não foi bem assim pois já nos primeiros passos sentimos um ambiente quieto, a sensação é que todos estavam dormindo mesmo estando acordados… Eles estavam ali, mas pareciam desligados do mundo. Alguns sorriam para nós, outros indiferentes ou mesmo irritados.

Pelo o que coletamos, o lar dos velhinhos atende cerca de 160 idosos carentes de ambos os sexos, com atendimento integral em saúde, reabilitação psicológica, recreativa e social.

O lar dos velhinhos sempre recebeu profissionais iniciantes nas áreas de Gerontologia Social e Geriatria para a formação e aperfeiçoamento. Mesmo com tanta assistência, o sentimento permanecc o de abandono… Os profissionais são pacientes e cuidadosos, mas é triste ver uma pessoa que passou por tantas coisas na vida, enfrentou tantas dificuldades, lutou tanto para conquistar um espaço… Estar no final da vida em um lugar frio e gelado, sem seus parentes e amigos.

È estranho ver em cada olhar uma movimentação da história, ver através da pele uma vida e agora ela está estacionada como se esperasse alguma coisa acontecer, esperar o fim da vida.

O que podemos observar também é que o idoso, parece esperar sobre uma solução final para sua vida, a rotina das atividades é intensa e triste, as atitudes e sua conversas entre eles, me pareceram sem sentido de vida, sem amor, sem paixão. Acomodados pela a vida que tem sem perspectiva de mudança e vontade de mudar.

Em relação ao espaço que esse idosos vivem, eu não tenho muito a colocar, recebemos um atendimento normal da assistente social Vanessa e percebemos que eles cuidam muito bem de seus associados.

A entidade foi uma das 50 vencedoras da 10ª edição do prêmio Bem Eficiente 2006 – prêmio que é o maior reconhecimento para o terceiro setor, o qual já foi ganho pelo Lar dos Velhinhos de Campinas nas edições de 2000 e 1997.

Ela se mantém com poucas verbas oficiais e o restante é coberto com promoções, bazar beneficente, doações, sócios contribuintes e pensionistas.

Idosos movimenta corpo em projeto

A disposição é de um atleta de 20 anos. A força de vontade também. E o desejo de manter a saúde em dia e, ao mesmo tempo, fazer amigos e manter uma atividade social é o que leva essas pessoas a praticar esportes como atividade lúdica e divertida. E é isso que buscam os participantes do Projeto Melhor Idade.

Pelo menos duas vezes por semana, homens e mulheres com mais de 50 anos malham, suam a camisa no vôlei adaptado e se divertem nos jogos de dama e de tranca. Elas preferem manter a forma na ginástica. Eles

gostam de competir na bocha ou na malha.

“Os nossos atletas amadores de 3ª Idade buscam melhorar o índice de saúde, melhorar a capacidade física e de interagir com outras pessoas, o que acaba melhorando também até a saúde mental, evitando a solidão e

a depressão”, disse o coordenador do Projeto Melhor Idade do Departamento de Esportes de Campinas, Danilo Ciaco Nunes.

Ali o problema não é a idade, pelo contrario ela só ajuda. No rosto de cada idoso, castigado pelo tempo de trabalho, é fácil de visualizar a alegria, e o grande sorriso. Todos tem disposição de sobra para praticar todas as modalidades e eventos programados. Não reclamam de nada, pelo contrario, querem sempre mais.

“Minha vida melhorou muito depois que comecei a vir no projeto”, diz senhor Jorge, 60 anos. Já dona Maria, acredita não conseguir mais ficar sem praticar exercícios. “Agora tenho que manter meu corpo em movimento”, brinca.

Quem disse que idosos não comemoram Dia dos Namorados

Quem nunca ouviu que o tempo voa, quando se vê já passou vários anos. Mas essa não é visão do casal Luis Pedro e Josefa, ambos acreditam que o tempo passou no seu devido tempo. Os anos foram virando, mas todos foram aproveitados. Com seus recém completados 52 anos de casamentos, os dois ainda cultivam a data dos namorados.

“Quando é Dia dos Namorados, ou aniversario de casamento, a gente sempre faz alguma coisa especial”, relata Luis. Geralmente Josefa faz um almoço especial. O dia é sempre para os dois. Logo ao amanhecer, é feita a caminhada, que já é rotina para eles. Na volta tomam café-da-manhã, e preparam-se para o dia.

Durante anos Seo Luis trabalhava todo dia. Levantava às 5 horas da manhã. Dona Josefa ficava em casa para preparar tudo, almoço, limpava e roupa limpa. Hoje, aposentado por tempo de serviço e depois de brigar para conseguir, tudo por não ter tido carteira assinada.

Nos dias especiais, o almoço é feito com todo o carinho. No ano anterior, tinha sido carne assada, legumes, arroz, feijão e batata frita. Vale ressaltar a memória de Dona Josefa que sempre lembra de tudo.

Depois do almoço é feito um passeio pelo parque da cidade. Caminham de mãos dadas, sem a preocupação de voltar para casa. E aproveitando o descanso merecido depois de anos de trabalho duro.

Na volta para casa, começa a preparação para o jantar. Segundo Dona Josefa há três anos ela fez a luz de velas, e quer repetir na próxima data. “Eu gosto de coisas românticas. No jantar, a comida tem que ser mais leve. Já não temos a mesma idade para abusar”, diz Josefa.

Nunca deixam nenhum assunto passar em branco. Tudo que ouvem vira conversa, e de vez em quando até discussões. Mas é depois do jantar o melhor momento. Segundo eles, vão dormir de mãos dadas e dormem abraçados. “Agradeço todos os dias à Deus, por ter me dado um marido tão bom”, confessa Josefa.

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Grupo de trabalho

Breno Queiroz
Ewerton Silva
Leandro Filippi
Michelle Occiuzi
Murillo Nascimento
Paulo Passini